“Tripas” coloca a relação entre pai e filho em cena no Festival de Curitiba

Publicado 14/03/2019

Com texto e direção de Pedro Kosovski, projeto nasceu há dois anos quando o ator do espetáculo e pai do diretor, Ricardo Kosovski, estava no hospital entre a vida e a morte. Foto: Lourenço Monte-Mór

Da necessidade de romper o silêncio de um quarto de hospital, nasceu “Tripas”, um projeto que faz referência à memória, às relações familiares, às profundezas do corpo. O espetáculo em que Ricardo Kosovski e Pedro Kosovski se encontram como ator e diretor, além de pai e filho, compõe a Mostra 2019 do Festival de Curitiba e será apresentado nos dias 06 e 07 de abril, no Teatro Paiol.

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“A peça é sobre nós, passado, presente e futuro, mas também tem aspectos fantásticos, pois trata do olhar que fabulamos sobre nós mesmos”, explica Ricardo, que neste projeto celebra 40 anos de carreira artística, justamente quando seu filho, Pedro, dirige pela primeira vez um texto de sua autoria, com seu próprio pai em cena.

“Tripas” narra o encontro de dois artistas, um pai e um filho, que decidem compartilhar com o público o cruzamento de suas biografias. Segundo Pedro, trata-se de uma “autoficção”, onde realidade e fantasia se entrelaçam, projetando a narrativa para além do biográfico. “Antes de ser um encontro entre pai e filho, este é um encontro entre dois artistas. A liberdade supera a nossa própria história”, completa Ricardo.

A história que precede o espetáculo remete a um drama familiar real. O diretor Pedro Kosovski testemunhou a jornada hospitalar do pai, o ator Ricardo Kosovski, que devido a uma crise de diverticulite aguda passou por três cirurgias e nove meses de internação. Durante este período a convivência dos dois esteve marcada pelo cotidiano de um hospital, o que produziu nos dois uma vontade mútua: viajar o mundo quando tudo aquilo acabasse.

“É uma história muito forte, eu quase morri. Quando passou, resolvemos voltar às origens”, conta Ricardo. Foi assim que, no início de 2017, os dois visitaram Israel. “Foi a primeira vez que viajei sozinho com meu pai”, lembra Pedro. “Foi transformador! Entendemos a nossa relação. Foi necessário passar por tudo aquilo para entender o que a gente tem”.

Lá, na região fronteiriça entre Israel, Egito, Jordânia e Arábia Saudita, pai e filho conheceram o Golfo de Ácaba, onde Pedro começou a esboçar a dramaturgia. Na peça, um homem encontra-se preso nas fronteiras do golfo, cercado por observadores internacionais, a plateia. Ele se dirige ao público narrando fragmentos de sua história e de seu filho.

“Teatro e hospital não combinam. O teatro está vivo, é o frescor da vida. Para falar da fronteira entre vida e morte, entre filho e pai, optei por esta fábula, onde falo através do meu pai”, explica Pedro, que na sua estreia como autor lança respostas e perguntas sobre afetos, origens e redutos de ancestralidade.