DE 24 DE MARÇO A 05 DE ABRIL 2020 29º Edição

O que pode um corpo?

Esta pergunta inspira e provoca a curadoria nesse 2020 cheio de desafios. Pensar a sistematicidade do corpo e as codificações sobre seus valores é fundamental para o pensamento social, filosófico e artístico. No campo das artes vivas, presentificadas no coletivo, nos corpos em relação, esta pergunta, como sugere Foucault, clama por uma ‘história dos corpos’ que possa investigar sobre o que neles há de mais material, mais vivo.

O teatro retoma então, mais uma vez, seu lugar histórico de reverberação e testemunha do nosso tempo, de afirmação de nossa existência no mundo, de ressignificação da vida e dos seus sentidos de liberdade, através dos corpos de criadores e espectadores que se reúnem na reapropriação da nossa potência vital de criação.

Como sugere a pensadora brasileira Suely Rolnik, na perspectiva de um ‘saber-do-corpo’, apresentamos a programação da Mostra e das Interlocuções desse ano:

Abrindo o Festival, Eu de Você, com Denise Fraga e direção de Luiz Villaça, ilumina os caminhos dessa edição de 2020 apresentando uma dramaturgia tecida a partir de histórias reais recolhidas e materializadas no corpo da intérprete, numa performance popular de alta voltagem e sofisticada elaboração estética. Um peça feita junto com as pessoas do público e que traz diversas reflexões, com emoção, humor e pensamento crítico, sobre os sentidos de humanidade nos complexos dias atuais.

A brasileira Marcela Levi e a argentina Lucia Russo apresentam dois trabalhos que aqui formam um díptico. Deixa Arder e Boca de Ferro apresentam os corpos dos bailarinos e cocriadores Tamires Costa e Ícaro Gaya, como palcos extremos de apropriações que vão da desconstrução irônica do Music Hall no corpo de Tamires aos memes e aos procedimentos do Tecno Brega Paraense no “corpo-suor” de Ícaro.

Em Cria, Alice Ripoll e dez bailarinos de diversas comunidades cariocas apresentam corpos capazes de expressar a ginga do afrofunk, o virtuosismo do passinho e a teatralidade da dança contemporânea, criando uma poderosa camada sonora desenvolvida a partir do beat box do funk cantado.

Potestad, clássico do teatro argentino contemporâneo, escrita pelo autor Eduardo Pavlovsky, aborda o contexto trágico e violento dos desaparecidos na ditadura militar daquele país. Narra a história de um médico repressor e apropriador que se faz passar por pai de uma criança roubada. Escrita em 1985 e, agora, com a direção de Norman Briski, traz a atriz María Onetto, uma das mais importantes de sua geração na Argentina, interpretando um personagem masculino numa encenação com elementos do Teatro Nô japonês. Uma obra de teatralidade e estética contundentes. Fundamental em relação a todas as historias que não podemos esquecer para não repetir.

Manifesto Transpofágico, transcria, reivindica e ocupa o próprio lugar do teatro como plataforma crítica na arte. Voz, corpo e consciência histórica materializados na presença da autora e performer Renata Carvalho, com direção de Luiz Fenando Marques. Dramaturgia da vivência travesti. Escrevivência e travaturgia, nas palavras dxs criadorxs dessa obra-manifesto endereçada à urgência do agora.

Também com direção de Luiz Fernando Marques, aqui junto com Giovana Soar, o Grupo Magiluth traz a sua versão do já clássico contemporâneo Apenas o fim do mundo, do autor francês Jean-Luc Lagarce. Dramaturgia do retorno, reinvenção e ocupação do espaço físico na relação com o público, potência da palavra incarnada nos corpos brasileiros e nas masculinidades e homoafetividades críticas dos atores do grupo pernambucano.

Oboró – Masculinidades Negras, com direção de Rodrigo França, articula uma série de relações entre os sentidos e potências dos Orixás e as histórias da realidade de vida de dez homens negros, com suas lutas, alegrias, erros e acertos. O espetáculo afirma a força das narrativas, das sonoridades, e da convivência para trazer à tona subjetividades pulsantes e reflexões fundamentais sobre o mundo hoje.

3 Maneiras de Tocar no Assunto se faz igualmente na construção de três narrativas que abordam a violência contra homossexuais em diversas situações que vão desde o bullying homofônico nas escolas, passando pela revolta do legendário bar nova-iorquino Stonewall e pelos discursos poderosos do ex-deputado federal Jean Wyllys. Escrita pelo ator e autor Leonardo Netto e dirigida por Fabiano de Freitas, a obra se inscreve no real de maneira contundente. Fala direto à consciência de cada um numa articulação teatral que nos leva para dentro de cada uma das histórias.

MICU – Mostra Internacional de Cabaret reúne cabareteirxs da Argentina, México e Brasil, com curadoria da Cia Selvática, de Curitiba. Cabarets que tem como premissa a crítica social, a piada de si mesmo e a diversão sem censura, os corpos que aqui se apresentam são também construções alegóricas de uma identidade coletiva da América Latina.

A Mostra Novos Repertórios integra pela primeira vez a programação da Mostra do Festival de Teatro de Curitiba. Em ocasiões diversas já esteve no Fringe e mais recentemente em edições autônomas em outras épocas do ano. Com curadoria de Giovana Soar e Michele Menezes, reúne espetáculos da cena contemporânea de Curitiba, atraindo um grande público e intensificando o movimento artístico da cidade.

O espetáculo excomunhão da Cia Cena 11, Anátema 02, apresenta o corpo como condutor e recipiente de uma liturgia entre espaço e movimento através da performance de cinco mulheres que desenvolvem investigações sobre convívio, diferença, vestígio e continuidade.

O Grupo Galpão, de Belo Horizonte, histórico parceiro do Festival, chega com sua mais nova criação, Quer ver escuta, uma investigação sobre poesia contemporânea brasileira e sobre como performar e criar zonas de escuta, percepção e partilha da experiência poética nos dias de hoje, nos corpos e na memória das atrizes e atores do grupo. A peça, com direção de Marcelo Castro e Vinicius Souza, estreia no Festival.

Gil, a mais nova criação do Grupo Corpo, também de Belo Horizonte, parte da movimentação de Xangô nas festas do candomblé e da expressividade dos corpos afro-brasileiros para homenagear Gilberto Gil, que assina a trilha sonora inédita. O programa se completa com Sete ou Oito Peças para um Ballet, criação de 1994, que encontra forte ressignificação no Brasil atual. A beleza da combinação do verde e do amarelo é devolvida aos brasileiros de maneira delicada e contundente.

Maior nome do rap underground de sua geração, Emicida traz ao palco do Guairão sua síntese do poder da rítmica brasileira com o show de seu novo disco, AmarElo. Ressoando nos ouvidos como grito da formação passada e presente do Brasil, a obra do artista encontra aqui uma nova afirmação artística com novos flows e melodias e um discurso revolucionariamente afetivo onde o artista afirma “Pro mundo em decomposição / Escrevo como quem manda cartas de amor.”

Em SODOMAGOMORRA:ANTUNESFILHO, Luiz Päetow faz sua criação a partir de um texto inédito do mítico diretor Antunes Filho, construtor de um dos maiores legados ao teatro brasileiro, que este ano completaria noventa anos. Na dramaturgia aqui investigada misturam-se caminhos auto-biográficos dos diretores e reflexões do papel do artista na sociedade brasileira.

No ano do centenário de Clarice Lispector, duas peças partem da obra da autora. Denise Stoklos estreia seu Abjeto-Sujeito: Clarice Lispector por Denise Stoklos e Laila Garin protagoniza A Hora da Estrela ou o canto de Macabéa, musical inédito com composições originais assinadas por Chico César a partir da obra homônima. Stoklos apresenta a corporeidade de Lispector atravessando o seu Teatro Essencial e performa as grandes instâncias da autora, a condição social, a condição humana e a linguagem. Laila corporifica Macabéa, uma das grandes heroínas do repertório da literatura brasileira que “um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito.”

Aos 82 anos, Renato Borghi, um dos atores mais importantes do país, revisita sua criação a partir de textos de Bertold Brecht em O Que Mantém um Homem Vivo?

Em um país que atravessa um conflito de identidade, as cenas do autor alemão encontram forte eco de identificação e de crítica.

O ator Cacá Carvalho, depois de um período sem se apresentar na cidade, traz a Curitiba seu solo-leitura A Próxima Estação – Um Espetáculo para Ler. A sensibilidade das palavras do premiado autor italiano Michele Santeramo são potencializadas pela forte presença do ator, que narra a saga de um casal ao longo de 50 anos, de 2015 a 2065, fazendo precisas e belas reflexões sobre como a passagem do tempo age em cada um de nós e como as transformações do mundo podem nos levar a um futuro distópico.

Em Quarto 19, Amanda Lyra e Leonardo Moreira partem do conto da escritora Doris Lessing, prêmio Nobel em 2007, e criam uma narrativa confessional sobre alguns dos temas mais persistentes da autora, como as dualidades entre o desejo humano e os imperativos do amor, da traição e da ideologia e as tensões entre o doméstico e a liberdade.

Nova produção do Teatro de Comédia do Paraná, afirmando a importância do investimento público direto na arte, com direção de Rodrigo Portela, “TodoMundo!” mostra a grande forma do dramaturgo Branden Jacobs-Jenkins ao desmontar uma peça de moral do século XV sobre salvação cristã e produzir um trabalho sobre o amor.

Pelas mãos do Grupo Armazém, os quase trinta anos da estreia de Angels in America confirma que o épico de Tony Kushner conquistou o panteão dos clássicos, símbolo de como a ficção é capaz de espelhar de forma quase profética os rumos da humanidade.

Auto da Compadecida, a partir do clássico de Ariano Suassuna, aborda religiosidades e paganismos na perspectiva de um Brasil profundo e bem-humorado, numa relação entre erudito e popular característica do autor. Com o grupo mineiro Maria Cutia dirigido pelo também mineiro Gabriel Villela.

Novos Baianos, musical inédito escrito por Lucio Mauro Filho e dirigido por Otavio Muller a partir de histórias e composições do lendário grupo que, no final dos turbulentos anos 60, impulsionou uma revolução rítmica e comportamental marcada por liberdade, poesia e coletividade. Davi Moraes e Pedro Baby assinam a direção musical.

O Mistério de Irma Vap apresenta uma nova versão para o clássico cômico do underground nova-iorquino. A nova montagem honra a tradição do vitorioso encontro entre o Teatro do Ridículo de Charles Ludlam e o Teatro Besteirol carioca.

Como parte da Mostra temos ainda as Interlocuções, espaço dedicado aos debates, encontros, pensamento crítico, performances e ações de diversas naturezas, com o intuito de ampliar a experiência e os sentidos de convivência e troca. Além disso, criar memória e registro, pensando o Festival não apenas como um evento, mas como reverberação para além do período em que acontece. Nesta edição de 2020, seguimos com a palavra aberta, palestras documentadas, oficinas gratuitas, temporada de performance, lançamento de livros, ponto de encontro e outras atividades reunindo artistas e público. O sentido maior de um festival.

Seguimos vivos e vibrantes! Bom Festival!

Marcio Abreu e Guilherme Weber

Curadores


Festival de Curitiba. Um convite ao encontro de todos!

Dizem imprecisamente que curitibanos de nascença ou de coração não são muito acolhedores. Mas para todos nós que fazemos esse festival acontecer isso é apenas mais um “conto” dessa característica reflexiva. Durante esses 13 dias de arte, cultura, conhecimento e de encontros durante o Festival de Curitiba, nos tornamos ainda mais uma cidade de mente, braços e corações abertos para receber as centenas de companhias e milhares de artistas convidados que chegam de todos os estados do Brasil, como também de vários países do globo. Nessas duas semanas, nós curitibanos de alma falamos “todas as línguas”, temos “todos os sotaques”, sonhamos “todos os sonhos” e vivemos “todos os palcos” em uma só frequência, a do convite ao encontro com a arte, com o pensamento e com o teatro!

E foi pensando neste encontro que convidamos os curadores Guilherme Weber e Marcio Abreu que encerram de forma muito preciosa um ciclo importantíssimo na história do Festival de Curitiba, indicando os espetáculos da Mostra 2020, que também são convites insubstituíveis para a reflexão do corpo e da mente.

Todos nós também estamos de corações abertos para receber as mais de 300 companhias que aceitaram nosso convite de participação do Fringe, a mostra democrática e sem crivo de curadoria, possibilitando ainda mais o enriquecimento da programação de teatro, circo, música, dança e performances, de forma acessível e diversificada, para todos os tipos de públicos, em mais de 80 lugares da Grande Curitiba.

E como estamos celebrando o encontro fizemos questão de convidar nesta edição, a fim de fortalecer o elo entre a Mostra e o Fringe, a Cia. Epigenia, em comemoração aos seus 20 anos de atuação, uma companhia de história forte e bonita dentro do Fringe, que há anos fortalece a cena teatral e artística curitibana.

Também queremos aproveitar e agradecer as empresas que aceitaram o convite de fazer parte dessa jornada, ao se juntarem conosco neste grande projeto, com o patrocínio de marcas como Vivo, Electrolux, Ebanx, Junto Seguros, Uninter, Banco RCI e GRASP.

Ao público curitibano e aos turistas, a nossa certeza de que o Festival de Curitiba 2020 será uma experiência produtiva, de crescimento artístico, cultural e social, repleta de emoções, gargalhadas, lágrimas, gritos, aplausos, ritmos, movimentos e pensamentos.

E, para firmar e fortalecer ainda mais esse grande encontro entre todas as pessoas que fazem o Festival de Curitiba acontecer, sejam artistas, equipe técnica, plateia, jornalistas, estudantes e fomentadores, apresentamos nesta edição o “Ponto de Encontro”, um espaço de convivência, com exposição de arte, café e bar, que abrigará o Interlocuções e o Escritório do Fringe. Sem esquecer do “Espaço Renault Ariano Suassuna”, que receberá um projeto de interiores em homenagem ao poeta e dramaturgo, sendo um espaço de relacionamento entre imprensa, influenciadores, patrocinadores, artistas e convidados.

É por causa de tudo isso que queremos te convidar para esse grande encontro de pessoas e instituições com as artes, na certeza de que o Festival de Curitiba foi feito e dedicado para você, como também, pensado e elaborado para TODOS!

Fabíula Passini e Leandro Knopfholz
Diretoria Geral do Festival de Curitiba

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Processo de cancelamento de ingresso





Seu pedido de cancelamento foi recebido.

A produção do festival entrará em contato na sequência.