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A realidade aplaude de pé

Trinta anos depois da primeira edição do Festival de Curitiba – o nosso festival de teatro – dá para dizer que tudo aquilo que a gente desconfiava que podia acontecer, aconteceu. O evento reduziu a pó a desconfiança inicial com que foi recebido; e marcou de tal maneira que se tornou um dos predicativos da cidade. Além de laboratório de urbanismo, daquele 29 de março de 1992 em diante Curitiba se tornou também uma gigantesca oficina de teatro. A propósito, não foi bolinho: foi uma lenha.

Nas primeiras edições, o evento se tornou a moça alvejada pelo atirador de facas. A maledicência e a azaração surgiram em versões sofisticadas, bem a gosto da cidade que inventou a Boca Maldita. A começar pelas comparações com o Filo, de Londrina – o primo erudito e conceitual do FTC. Arrisca que farpas como essa saíam até da boca do pipoqueiro do Guaíra. Some-se o argumento surrado, com azedume maoísta, dizendo que as salas de teatro minguavam depois das duas semanas de maratona cênica. Logo, o festival seria muito barulho por nada e era melhor que não acontecesse.

Essa conversa miúda e afiada, contudo, se revelou incapaz de frustrar a “transa” que o FTC promoveu com a cidade. Provamos da alegria do teatro, um prazer que não pedia o ingresso de volta. E assim se passaram os anos, a bordo de um final feliz.

É sempre bom lembrar que o festival não inventou o teatro na capital paranaense. Os capítulos dessa história passam pelas óperas das sociedades étnicas, como o Concórdia, pelo Teatro de Comédia do Paraná, pelo Teatro de Bolso… A impressão que fica, contudo, é que todo esse passado ganhou uma lupa a partir do nascimento do FTC. Mexeu com nossos sentidos, do cerebelo ao cóccix. Fez um bem danado à nossa razão e sensibilidade. 

Acusada de cinzenta, fria e autofágica, Curitiba se mostrou, nas últimas três décadas, a cada edição, uma meca popular, carnavalesca, sexy, diversa – uma tropicalista tardia e cheia de amor pra dar. Por uns dias a cada ano? Que dias, minha gente. Muita má vontade colocar no diminutivo tamanho som e fúria.

O FTC nos formou em teatro, sem precisar recorrer ao manjado verniz enciclopédico. Permitiu que exercitássemos “a quente” a chamada “vida do espírito”, expressão que até hoje não encontrou substitutivo. Tirou e tira muita gente da caixinha a loucurada que é assistir a uma rodada de peças de manhã à noite, temer uma overdose cênica, saltar da montagem estrelada pelos globais para a companhia dos mambembes, e se sentir provocado a dizer algo sobre essa experiência. Ser público é ser crítica. O festival não é só sala de espetáculo cheia, é fala boa, prática que, em última análise, mostra-se um processo civilizatório.

O abril-maio-junho… seguintes àquela sessão em que a gente sentou numa arena, sentindo o hálito dos atores – tão perto estavam – não são um intervalo qualquer nas nossas rotinas. Impossível medir, quantificar, calcular se o festival reverteu em melhoras nas bilheterias no resto do ano, se nos fez pessoas melhores ou o escambau. Tão impossível quanto é não admitir seu impacto na cosmologia urbana. 

O teatro é sempre e em qualquer lugar um sobrevivente. Mas na cidade que abriga um evento desse porte, há tanto tempo, o teatro é também aquele que fala alto, por cima dos ombros, com poder o bastante para colocar o sonho e a ficção no cardápio do dia. À realidade só resta aplaudir de pé.

 

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