Atriz e dramaturga apresenta seu “Manifesto Transpofágico” no Festival de Curitiba e aposta no poder transformador da arte
Por Sandro Moser e Sara Zonta Tafner

“Sempre achei que ia morrer. Morrer de morte matada. E aí descobri que quero é viver”, disse Renata Carvalho durante a entrevista coletiva na sala de imprensa no Hotel Mabu na terça (26)
A atriz, autora e ativista traz à Mostra Lucia Camargo seu espetáculo Manifesto Transpofágico, em duas apresentações nesta quarta (27) e quinta-feira (28), sempre às 20h30, no Teatro Paiol.
O monólogo chega finalmente ao Festival de Curitiba depois de ter sido impedido pela pandemia em 2020. Com direção de Luiz Fernando Marques, o Lubi, a peça tem a “travaturgia” de Renata, um do muitos conceitos por ela formulados no texto e na sua pesquisa no campo da “transpologia”.
Segundo a autora, a peça, no conteúdo e na forma, tem uma dinâmica oposta a alguns de seus trabalhos anteriores e a uma certa (e preconceituosa) “expectativa geral” sobre sua produção dramática. “Eu não quero mais gritar”, disse, sem fazer som e enfatizando a expressão nos lábios.
Renata conta que estudou comunicação não-violenta para criar o espetáculo em que propõe “narrativas de sonho”. “Quero escrever sobre sucesso, amor, afeto e pessoas trans e negras bem-sucedidas, abordando a transfobia sem reproduzi-la ou reforçar estereótipos”, disse.
A atriz emocionou a todos quando falou de como superou um período que durou anos no qual foi perseguida e ameaçada em razão de seu trabalho e do qual só tem saído, aos poucos, após botar na estrada o Manifesto Transpofágico.
Em 2018, a atriz santista ficou muito conhecida por gente que nunca a viu no palco, após a reação violenta à montagem do texto “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, da britânica Jô Clifford, que no lugar de debates e reflexões gerou uma onda nacional de transfobia e censuras.
Renata foi ameaçada de morte inúmeras vezes de lá para cá, mas disse que o silenciamento e falta de empatia da própria classe artística é ainda pior. “Não era uma luta individual, era uma luta coletiva. Então, eu não estava lutando para eu estar no palco, eu estava lutando pelo direito de todos estarem”, disse.
“Dionísio nunca me abandonou”
“Algumas pessoas acreditam que minha carreira foi alavancada pela censura, mas foi o contrário. A censura não tem nenhum lado bom. Fiquei muitos anos sem sair de casa, pois quem não sai de casa não morre”, completou.
A “parceria amorosa” com o também santista Lubi e o êxito que o espetáculo obteve circulando pelo Brasil e por muitos países da Europa abriram a porta que a trouxe de “volta ao jogo”. “Dionísio nunca me abandonou. Quero viver porque a vida é maravilhosa, independente se vou ganhar alguma coisa ou se estarei em um festival como o de Curitiba. A gente precisa voltar a ter capacidade de sonhar. Mesmo que a vida seja tão dolorosa, arrastada, sofrida para a maioria. Mas, gente, viver é tão bom”, disse.
O diretor Lubi exaltou a coragem a importância da pesquisa e do ativismo de Renata, mas fez questão de chamar atenção sobre o lugar da atriz no teatro brasileiro na última década. “Ainda não se fez uma revisão, muitas pessoas agiram mal e ainda agem, mas poucas pessoas até hoje pediram desculpas. Poucas ocuparam o mesmo espaço usado para atacar para refletir. Por outro lado, sempre que se fala dela se deixa de escrever sobre a atriz, sobre a grande artista que ela é e sobre tudo que ela é capaz de fazer”, disse.
No final da entrevista, Renata falou sobre a capacidade do teatro em transformar a realidade. “Sempre tive a noção que a arte transforma, mas achava que melhorava pessoalmente, ampliando meu repertório cultural. Mas descobri com o Manifesto que a gente transforma a plateia, então é esse poder que eu quero”, disse.
"Dionísio nunca me abandonou. Quero viver porque a vida é maravilhosa, independente se vou ganhar alguma coisa ou se estarei em um festival como o de Curitiba. A gente precisa voltar a ter capacidade de sonhar", Renata carvalho na foto com Lubi.