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Entrevista – Lenise Pinheiro

Início do trabalho

“Fui conhecendo produtores, me embrenhando profissionalmente cada vez mais nas produções, e com um resultado estético que agradava a todos. Eu não tinha nenhum vínculo fixo profissional, então meu sustento se dava quando tinha continuidade. Um ia indicando pro outro”.

 

Início do Festival

“Toda a classe teatral viu um novo porto para ancorar. E essa possibilidade não se esgotou, ela trouxe o surgimento de novas salas de teatro e a conservação das que já tinham. O Festival empurra a movimentação teatral: eu não conheço um ator que não queira vir para Curitiba. Virou algo atrativo e, acima de tudo, é muito organizado”.

“Eu intuitivamente pensava: ‘Esse Festival vai durar séculos. Vou colar nele’. Eu era a primeira a chegar e a última a ir embora. Nos 10 primeiros anos eu estava, nos 20 eu estava… essa cobertura maciça me trouxe um material muito interessante no sentido numérico, de ter uma amostra da mostra”.

“O Festival se instalou no calendário anual dos artistas. O Festival abre os trabalhos da temporada do ano. Tudo que vai pra Curitiba, floresce”.

 

O que o acervo aborda

“Além da grade da mostra oficial, eu me ative muito à programação do fringe. O mote da curadoria reúne dois aspectos: estético – a foto que fala por si; e evolução do artista”. 

“Eu sempre procurei fazer com que meu trabalho mostrasse o trabalho dos integrantes do movimento teatral. Porque também eu vi a possibilidade de fotografar outras coisas: o trabalho do cenógrafo, do figurinista, todos os quesitos que o teatro incorpora. Isso fez com que meu acervo se tornasse plural, múltiplo de informação, porque minha ideia era ser documentarista. Eu nunca aspirei ser atriz, eventualmente participei de algumas produções, mas meu foco foi na fotografia de teatro. A gente vê muitas pessoas trabalhando onde dá, então me sinto privilegiada e com alguma sorte de conseguir perpetuar meu trabalho onde eu gostaria que ele estivesse”.

 

Construção do acervo

“O acervo foi crescendo paulatinamente. Eu retrato teatro desde o começo dos anos 80, então eu já era uma fotógrafa com alguma experiência, porque no teatro os primeiros 10 anos não configuram muita coisa. Eu fui me adequando às necessidades do teatro, juntando com minha fotografia. Sempre priorizei as peças que eu entendia como importantes, mas nunca deixei de lado atores iniciantes que, assim como eu, estavam iniciando naquele processo. E isso me trouxe um entendimento maior do trabalho e a possibilidade de acompanhar essas pessoas no futuro. O acervo foi crescendo à medida que eu fui me embrenhando nesse mundo mágico do teatro”.

 

Importância do material organizado

“Se eu não tivesse me preocupado desde o começo com a organização do material, eu não chegaria nos dias de hoje com a possibilidade de finalizar essa exposição”.

“Eu não tive nenhum problema de encontrar material. A questão maior era mandar os negativos pro laboratório. Eu tive que aprender a trabalhar paulatinamente. Eu não podia reunir um monte de negativos numa caixa só”.

“O tratamento das imagens foi feito de modo que elas possam ser ampliadas a partir de três metros. Um ganho é já ter esse material pronto para os 40 anos”, brinca. 

 

Onde as imagens foram feitas (aproximadamente 350)

“A exposição compreende alguns lugares emblemáticos, como o Teatro Paiol, o MON, Teatro da Reitoria e outras salas. Mas a fala que mais está representada no trabalho é o Teatro Guaíra, por ter mais subdivisões. O circuito compreende os mesmos lugares, mas com diferentes trabalhos”.

 

Spoilers do acervo

“A primeira parte demandou mais tempo de escaneamento das imagens, mas elas estão com muita qualidade, muito bonitas. Eu fico vendo e fico passada. Tem aquecimento de peça, muita foto em cena, Bia Lessa conversando com uma atriz, Chico César comovido com o autor da peça […] Uma característica da exposição é que não tem ator ruim. A excelência dos trabalhos é o que levam à escolha”.

 

Fotos da ‘edição que não existiu’ estarão na exposição

“A edição de 2020 foi virtual. Eu fotografei as imagens no vídeo e ampliamos até o limite possível. Tem foto da ‘edição que não existiu’”.

 

O que o Festival proporcionou – Evolução do trabalho e relação com o público

“O que o Festival me proporcionou nessa cobertura ininterrupta foi evoluir o meu trabalho junto com a cobertura que eu fazia. Começamos com o preto e branco e passamos para o colorido. O envio das imagens era feito por linha discada. Mas como o Festival sempre valorizou muito a cobertura, nos alojando em condições confortáveis, foram criados laboratórios, como na PUC-PR”.

“Eu colaboro para a Folha de S. Paulo desde 1984. E não favoreci o meu trabalho através do jornal. Eu usava o jornal para favorecer o trabalho dos outros, então casou muito bem a possibilidade de cobertura. Só que era muito difícil mandar foto antigamente. Eu só tive aquele laboratório profissionalérrimo (sic) na primeira edição, o primeiro e único que usei, porque depois, nós montávamos no hotel. Era mais fácil do que ir lá na PUC, e dava para fazer até de madrugada num escritório. Sempre tinha como transmitir as fotos. E as salas de assessoria de imprensa também ficavam no mesmo hotel e eu tentava alguém para me ajudar em momentos que não fossem de pico do Festival. Em algumas edições, eu precisava trabalhar a respiração para não ter um infarte, porque o jornal é muito tenso. Eu pensava que poderia não chegar até o jornal. Eu fazia isso bem cedo e tentava me livrar desse negócio”. 

“Na primeira edição, eu dei uma oficina para 20 fotógrafos, alguns deles profissionais e mais velhos do que eu. E essa oficina foi interessante porque eu tinha 32 anos e encontrei pares com muita receptividade e nós formamos um polo de fotografia. Eu ensinava como deveriam fazer e fui conduzindo ao ambiente teatral, de que maneira que eles ficassem à vontade”.

 Eu fui me equacionando a conseguir com pouco, por pura economia”.

“Eu fotografava as bobinas, acordava bem cedo, tomava um café ou um suco e iria revelar. Enquanto revelava eu voltava pro hotel e comia bem, porque Curitiba me ensinou isso: “Se alimente!”. Quando acabava o café, voltava pro laboratório e pegava só os negativos. A partir deles, eu escolhia e fazia a legenda. Essa documentação faz vista porque todo ator tem seu nome certinho”.

“Quando começou a ficar digital, primeiro teve o fantasma do novo equipamento. Ficou mais pesado: a câmera digital é mais pesada que a de filme. Nunca estava com menos de três quilos de sacolas.”

“Quando eu chegava, mal dormia, cobria os fringes da meia-noite. Tinha que revelar cedinho, então dormia três, quatro horas por dia. E isso faz diferença no final do Festival”.

“O que eu sinto é que o público passou a fazer parte da grandeza do Festival, comparecendo e fazendo muitas discussões. Depois, com o prolongamento das peças nos restaurantes”.

“Espero agradecer a cada um que me ajudou a fazer fotos, a cada um que sorriu pra mim”.

 

Momentos marcantes do Festival (‘BBB’ em local público; abertura da Ópera de Arame)

“Montaram uma casa de vidro com seis ou oito atores dentro, e eles não saíam para nada. É um formato que interessa às pessoas”.

“A abertura da Ópera de Arame foi um dos pontos altos do Festival. A inauguração foi com a peça ‘Sonho de uma noite de verão’, do Cacá Rosset, que se passa num lugar exatamente como aquele. A Ópera não estava totalmente finalizada, mas já tinha condições de uso, e foi muito marcante”. 

 

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