“Sísifo” faz sua estreia nacional no Festival de Curitiba

Publicado 14/03/2019

Dramaturgia de Gregório Duvivier e Vinícius Calderoni investiga como transpor para o palco a linguagem do gif e dos memes. Foto: Daryan Dornelles

Estará a realidade se tornando um grande gif animado? Existe algum caminho para pensar a condição humana no nosso tempo que não seja o meme? Estaremos nos robotizando imersos em manifestações virtuais que esvaziam o tecido afetivo de nossas vidas?

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O espetáculo “Sísifo” busca responder a tais perguntas, usando o mito de Sísifo, essencialmente ligado à repetição, como alegoria para levar ao palco a linguagem do gif e do meme. O monólogo faz sua estreia nacional no Festival de Curitiba, com apresentações nos dias 06 e 07 de abril, no Teatro da Reitoria.

“Sísifo” é a primeira colaboração cênica entre Gregorio Duvivier e Vinicius Calderoni, com interpretação do primeiro e direção do segundo. Ambos assinam o texto do monólogo, que propõe pensar como a dramaturgia pode dar conta destas formas contemporâneas de comunicação (gif e meme), que, com uma velocidade assustadora, tornam-se hegemônicas no ocidente, moldando a cultura e o comportamento.

Há uma célebre frase de Marx que diz que a história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa. Pensando no Brasil contemporâneo, podemos acrescentar, como hipótese, um terceiro desdobramento: a história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa e por fim, como meme?

Acompanhar as desventuras de um país em moto perpétuo que repete indefinidamente o DNA de sua desigualdade social num ciclo patológico traz à tona a dúvida: será o Brasil uma nação aprisionada dentro de um gif animado? Estará cada indivíduo desta nação girando na mesma rotação e submetido pessoalmente à mesma lógica (des)ordenadora de todo país?

Desenvolvido neste momento histórico marcado pela associação do ódio à política e a suplantação do calor dos corpos pela inteligência artificial, o espetáculo é também uma resposta à desumanização generalizada deste tempo, em especial no Brasil.

O desprezo pela alteridade e a crescente robotização dos internautas são partes de um mesmo fenômeno, criador de uma nova condição de indivíduo, agora repetidor autômato, incapaz de diferenciar realidade, sonho, meme ou fake news. “Sísifo” busca restabelecer essas fronteiras, assim como reconstruir a sanidade mental no mundo da pós-verdade.

Ao mesmo tempo, o monólogo se apresenta como uma recriação do célebre mito de Sísifo, uma figura condenada a levar uma pedra morro acima, vê-la rolar e recomeçar o trabalho por toda a eternidade. Não é, contudo, uma recriação fiel da história que o mito veicula, mas uma inspiração norteadora, um leitmotiv que se apresenta como fio condutor dentro de uma peça livre, ensaística e essencialmente contemporânea.

A escolha do mito de Sísifo ganha ainda outros contornos quando posta em perspectiva porque parece ser, de algum modo, a matriz do teatro, a arte da repetição infinita, por essência. Albert Camus, em seu célebre ensaio acerca do mito de Sísifo, “Le mythe de Sisyphe”, contraria as expectativas do senso comum e diz que imagina um Sísifo feliz dentro de sua tarefa eterna de carregar a pedra morro acima.

Duvivier e Calderoni concordam e almejam construir, em “Sísifo”, um espetáculo em que a repetição teatral consiga nos fazer sair do ciclo doentio de repetição patológica da realidade, antes que ela nos enlouqueça.

Parceria – “Sísifo” é a primeira colaboração teatral entre Gregorio Duvivier e Vinícius Calderoni, dois artistas que estão entre os expoentes de sua geração. Tanto Gregorio quanto Vinícius tem desenvolvido uma carreira múltipla e bem sucedida, trabalhando em variadas mídias. Gregório faz sucesso como ator e roteirista nos vídeos do Porta dos Fundos, é apresentador do programa jornalístico-humorístico Greg News (HBO), é escritor com diversos livros de prosa e poesia publicados pela Cia. Das Letras, foi cronista do jornal A Folha de São Paulo durante cinco anos e poderá ser visto em breve no novo filme de Karim Ainouz, A vida invisível.

Já Vinícius é um dos mais premiados dramaturgos brasileiros da nova geração (venceu o Prêmio Shell em 2015 por “Ãrrã”, o Prêmio APCA 2016 por “Os arqueólogos” e o Prêmio Reverência 2017/2018 por “Elza”, além de outras duas indicações ao Prêmio Shell por “Não nem nada” e “Os arqueólogos”), desenvolve carreira musical em incursões solo e com seu grupo 5 a Seco, já com cinco álbuns lançados, tem um trabalho sólido como roteirista de cinema e televisão (trabalhando com nomes como Luiz Villaça, Julia Rezende e Rafael Gomes) e também como ator de cinema e televisão, tendo recentemente feito sua primeira incursão como intérprete na novela Deus Salve o Rei (TV Globo).

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