Por Annelise Schwarcz
Foto: Lina Sumizono.
Há muito tempo, há tanto tempo, então, desde sempre e pelo tempo que
resta a vir, nós estaríamos em via de nos entregar à promessa desse animal em falta de si-mesmo.
Há muito tempo, pois. Há muito tempo, pode-se dizer que o animal nos olha?
Que animal? O outro.
Jacques Derrida
5. Tudo em ordem: Acordar, checar o feed do instagram e possíveis mensagens no whatsapp ainda embriagada de sono, se levantar, tomar banho, tomar um rápido café da manhã, passar o dia sentada na frente de uma tela, almoçar qualquer coisa, voltar para a tela, não saber que horas parar de trabalhar, comer qualquer coisa na frente da tela, dormir, repetir. Tudo em ordem: oferecer meus dados gratuitamente para as big techs, sonhar com o final de semana, trabalhar no final de semana, cooperar com a manutenção da lógica neoliberal, não tirar férias, adiar encontro com amigos, bater metas, não ter direitos trabalhistas, arrumar trabalhos paralelos, ignorar aquele pigarro que não dá trégua desde a covid-19, esquecer de marcar consultas médicas, sonhar com a aposentadoria, não ter previsão de receber uma aposentadoria. Até que um dia o corpo adoece ou envelhece, quebra ou se recusa a obedecer e seguir operando conforme a ordem. E, somente então, você se lembra que tem um corpo – que é um corpo – e que esse corpo demanda outro modo de funcionamento justamente aí, quando ele falha.
Como afirma o título do livro de Leah Lakshmi Piepzna-Samarasinha, O futuro é deficiente. É importante ressaltar que sua previsão de um mundo deficiente não se oferece como uma distopia. Pelo contrário, é na promessa desse mundo que reside a esperança de vislumbrar o fim do fascismo e do neoliberalismo, à medida em que a comunidade de PCD tem cultivado alternativas coletivas – e não eugenistas – para o cuidado de si e do coletivo com base na noção de interdependência. A escritora defende não buscar “soluções” individuais para incluir indivíduos e contornar seus “problemas”, mas pensar em mudanças mais profundas de infraestrutura e modo de vida, se nutrindo da sabedoria e das estratégias de construções de rede pensadas por pessoas com deficiências.
-1. “Do que você tem medo?”
1. No seu mais recente espetáculo, Monga, Jéssica Teixeira se inspira na vida de Julia Pastrana para tensionar a diferença dos corpos tidos como atrativos e os corpos que se tornam atrações [de circo], compreensões em torno daquilo que falta e aquilo se pretende inteiro, falar sobre o bem viver e o direito a uma morte digna, enquanto desmistifica alguns lugares comuns dos debates em torno dos corpos com deficiência. Seu corpo, ali colocado como estando em posição análoga à de Julia, circula pelo espaço devolvendo o olhar para a plateia que a assiste. Jéssica-Julia se aproxima de alguns rostos na primeira fileira e os encara, um por um, por alguns minutos, como quem pretende devolver o olhar objetificador.
Julia Pastrana (1834-1860) foi uma multi artista mexicana com hipertricose terminal, uma condição genética na qual o corpo é coberto por pelos, e, devido à sua aparência, viveu dos 20 anos até sua morte como atração de circos de aberrações (freak shows) pelo mundo. Para além de sua aparência atípica, que lhe rendeu apelidos como “mulher-macaca” e “monga”, Julia também dançava e cantava em suas apresentações. Em 1860, em uma turnê em Moscou, Julia deu à luz a um bebê natimorto que herdou a mesma condição genética da mãe. Julia faleceria poucos dias após o nascimento do bebê, em decorrência de complicações pós-parto. No entanto, mesmo após sua morte, Julia não obteve descanso. Os cadáveres circularam por universidades, exposições e galerias por mais de 100 anos, entre Rússia, Estados Unidos, Suécia e Noruega. Os corpos foram estudados, taxidermizados, roubados e até danificados. Durante a II Guerra Mundial, o corpo do neném se perdeu e o de Julia foi, mais tarde, arrematado por um colecionador norueguês em um leilão. Somente em 2013, por meio da organização de artistas mexicanos, o corpo de Julia Pastrana pôde retornar à sua cidade natal no México e receber o sepultamento digno que merecia.
O espetáculo assume um tom de cabaré ou freak show à medida em que Jéssica vai incorporando danças e canções à sua montagem, mimetizando e ficcionalizando a experiência de assistir a uma apresentação de Julia Pastrana. É no compasso da zabumba e das notas de guitarra, por exemplo, que a atriz irá descrever os procedimentos de embalsamento aos quais os corpos de Julia e de seu bebê foram submetidos a fim de se garantir sua conservação.
Na montagem de Monga, assistimos Jéssica Teixeira entrar em cena nua, exibindo as “curvas sinuosas” de sua coluna vertebral, usando apenas uma máscara de gorila. Jéssica oferece uma descrição de todos os elementos que compõe o cenário: “um corpo estranho no meio da cena sob um chão de espelhos quebrados” (feito de um material plástico), o refletor colmeia atrás da atriz, a operadora de câmera Ciça Lucchesi em sua frente, o iluminador Jimmy Wong e o contrarregra Aristides Oliver do lado esquerdo, os músicos Luma e Juliano Mends com uma guitarra e uma zabumba – respectivamente – à direita e, em frente aos músicos, um banco alto com água, cachaça e seu recém conquistado Prêmio Shell de Teatro na categoria direção (São Paulo) com Monga. Na diagonal traseira de Jéssica, sob um palanque iluminado por um holofote, a intérprete de libras Viviana Rocha.
Jéssica escolhe algumas pessoas na plateia e dirige a seguinte pergunta: “tu se imagina com cem anos?”. Muitos “nãos”, até que surge um “sim”. Como? “Sozinha em uma casa na floresta”. Ao ouvir isso, lembrei de cara do livro de Leah Lakshmi Piepzna-Samarasinha e pensei que o futuro não seria apenas deficiente em termos de um devir político, mas também em um sentido da própria condição da vida humana. Sob que condições uma pessoa de cem anos poderia habitar solitariamente uma floresta? Piepzna-Samarasinha chama atenção para a consciência da interdependência que pessoas com deficiência desenvolvem ao longo da vida. Penso, junto com ela, que o envelhecimento humano também nos convoca a nos enredar em vínculos de cuidado mútuo com nossas mais velhas e mais velhos, conforme o corpo vai envelhecendo. Os desdobramentos em cena, no entanto, não abordam explicitamente o corpo ou a construção de um senso de cuidado coletivo. “Perdemos a imaginação”, ela diz. A resposta da espectadora aparece como sintomática dos mitos neoliberais de autossuficiência e sucesso individual, que nos impossibilitam de prospectar uma velhice em coletivo, mas também – como Jéssica reforça – os “nãos” da plateia denunciam a incapacidade de fabular uma vida longeva e delirar um viver bem, na mesma medida em que não deixamos de falar de morte, pensar a morte, chamar a morte.
2. “Você acha que eu tô pagando um karma nessa vida? Se sim, para onde eu vou depois daqui?” Essa é mais uma pergunta dirigida à plateia e busca colocar em xeque os preconceitos que algumas pessoas reproduzem de que deficiência seria uma espécie de punição. Muitas respostas são oferecidas, mas nenhuma era a “resposta correta” (que curiosamente, seria justamente a “resposta que reproduzisse o juízo comum”). Ouvimos as pessoas se divertindo imaginando esse pós vida: “um sono eterno em um colchão sleep max”, ou oferecendo sugestões burocráticas como “guardar as notas fiscais para a próxima vida”. Mas nenhuma resposta é a “correta”. Ficamos nesse exercício até que alguém finalmente diga “você vai para o céu”. Responder “céu” é importante para que Jéssica possa fazer um discurso contra essa ideia de salvação de pessoas com deficiência e contra a ideia de inclusão. Todo esse discurso – brincando com o desejo de encontrar outras pessoas deficientes, baleadas ou pelo menos sem um dedinho mindinho – é feito como se Jéssica estivesse bêbada, segurando uma garrafa de cachaça na mão enquanto a produção distribui shots para a plateia e brindamos “salve-se quem quiser!”
Esses eventos não aconteceram necessariamente nessa ordem. Vocês sabem, a memória é uma ilha de edição. Mas estou destacando esse momento aqui com a finalidade de refletir sobre a necessidade de “se estar bêbada” para dizer certas verdades. Assim como, ao longo da peça, eram frequentes os alívios cômicos para desfazer possíveis desconfortos, como por exemplo ao narrar o embalsamento de Julia Pastrana e do bebê cantando. Existe uma proliferação de dispositivos utilizados para operarem a costura entre as cenas que impõem um ritmo veloz de cortes, e não permitem os respiros necessários para que se possa assimilar o baque. O punk rock, as piadas e as bebidas parecem querer fazer com que um espetáculo potencialmente denso funcione com uma leveza insustentável. Como meu colega Guilherme Diniz escreveu em sua crítica ao musical Ray – Você não me conhece: “Tais recursos, em conjunto, afastam o mal-estar, a contradição insuportável e a falta de respostas. Ao cabo, a concepção dramatúrgica parece sempre querer nos confortar, privar-nos de algumas angústias que, porventura, poderiam vir a deixar o espetáculo menos palatável.”
O fato de o alívio cômico aparecer como uma ressalva em dois espetáculos completamente distintos diz menos das montagens individualmente e mais de um movimento comum a várias peças de não bancar o desconforto. Mas acredito que certos silêncios precisam ser sustentados.
Certos confrontos exigem sobriedade, se quiserem realmente produzir uma inquietação e não apenas uma espécie de “morde e assopra”.
0. Jéssica Teixeira é atriz, produtora, diretora e roteirista, graduada em Teatro pela Universidade Federal do Ceará e Mestre em Artes também pela UFC. Como a atriz afirma, sua presença nos festivais de teatro não é mera política de inclusão, tendo em vista seu envolvimento com as artes da cena desde os 7 anos. Nos últimos anos, Jéssica tem se dedicado a pesquisar corpos estranhos nas artes. Em suas obras, o corpo é matéria bruta, enquanto ela – ali, se projetando como destacada desse corpo – se faz outra coisa. Percurso doloroso e prazeroso: se estranhar. Nesse percurso, Jéssica se torna ela, e o corpo, ele. Jéssica valoriza essa incerteza e estranhamento em suas criações e seu solo anterior, E.L.A. (2019), foi a mola propulsora dessa pesquisa. E.L.A. deixa de ser apenas um espetáculo e se configura como um procedimento dramatúrgico e político, uma operação de degeneração, mutação. Degeneração e incerteza caminham lado a lado à medida em que um corpo desafia a lógica neoliberal de produtividade e convida à incerteza. O que resta desse corpo é, no limite, uma possibilidade; uma promessa.
No audiovisual, Jéssica realizou, em 2020, o documentário Pudesse Ser Apenas um Enigma. Nele, a atriz – vestindo uma cinta peniana em pose de Esfinge – faz uma leitura das páginas do livro Testo Junkie: Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica (2018), no qual o autor Paul B. Preciado faz um levantamento dos códigos semióticos-técnicos da masculinidade e feminilidade, isto é, todas as práticas e visualidades que compõem o imaginário do que se entende por feminino e masculino. Na desmontagem de seu documentário, Jéssica confessa que por muito tempo pensou que pessoas como ela eram as únicas afetadas, pois jamais seriam como Marylin Monroe ou James Bond, mas eventualmente entendeu que nenhum corpo jamais seria. Talvez, nem mesmo o corpo de Marilyn ou o dos atores que interpretaram James Bond. A questão, portanto, deixa de ser exclusiva de pessoas trans ou de pessoas com deficiência e assume um caráter universal: todos e todas nascemos com um corpo que não escolhemos e precisamos aprender a viver com ele. Pudesse o corpo ser apenas um enigma, como os de Esfinge, mas não: o corpo dá trabalho, demanda cuidado, alimento, ele se degenera. Se o corpo é passível de degeneração, por que não podemos projetar também a degeneração do capital, das estruturas coloniais e de tudo aquilo que nos limita a imaginação de outros possíveis?
3. Se nutrindo de referências psicanalíticas, Jéssica aposta que a falta é uma experiência intrínseca à experiência humana até para quem se julga inteiro. “O que falta é admitir que falta”, pois é justamente sentindo esse vazio que ele pode virar movimento e não ressentimento. Talvez radicalizar na experiência da lacuna, da falta e deixar o vazio ganhar espaço na própria dramaturgia da peça, poderia produzir resultados interessantes, pois enquanto o discurso aponta para uma assimilação da incompletude, a peça não cessa de oferecer dispositivos e elementos para resolver rapidamente qualquer mal-estar que possa pairar.
Aristóteles, ao formular uma poética que deveria compor a estrutura de uma tragédia perfeita, lança mão da metáfora do “belo animal”. Esse animal – o corpo da fábula – deveria ter suas proporções harmônicas, vindo cada elemento em seu devido lugar: primeiro a cabeça, depois o tronco e por fim os pés. Ou seja, o início, o meio e o fim do drama devem seguir uma ordem e uma extensão específica de cada parte. Montagens modernas e contemporâneas vem desmontando e remontando o animal com diferentes apresentações, tensionando com a proposição de Aristóteles. Esse monstro que Jéssica nos apresenta não tem a estrutura aristotélica. Para além de reorganizar sua estrutura, me interessaria ver o animal que falha, o animal faltante, o animal lacunar, enfim, o animal monstruoso que, diante do espelho partido oferecido pela montagem, logo somos.
O espetáculo Monga foi apresentado nos dias 26 e 27 de março de 2025 no Festival de Curitiba.
Ficha Técnica:
Direção, Dramaturgia e Atuação: Jéssica Teixeira / Direção de Arte: Chico Henrique / Direção Técnica e Desenho de Luz: Jimmy Wong / Direção Vídeo/Fotografia e Operação de Câmera: Ciça Lucchesi / Direção Musical e Músico (guitarra): Luma / Músico (zabumba): Juliano Mends / Preparação Corporal: Calixto / Contrarregra: Aristides Oliver / Produção: Rodrigo Fidelis – Corpo Rastreado / Realização: Catástrofe Produções e Corpo Rastreado / Difusão: Corpo a Fora e Farofa / Músicas do início: Pra Fuder, de Elza Soares, Silence is sexy, de Einsturzende Neubauten e Real Resiste, de Arnaldo Antunes / Texto narrado em off: Entre Fechaduras e Rinocerontes de Frei Betto.
Referências bibliográficas:
DERRIDA, Jacques. O animal que logo sou (a seguir). Trad. Fábio Landa. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
PIEPZNA-SAMARASINHA, Leah L. The Future Is Disabled: Prophecies, Love Notes and Mourning Songs. Canada: Arsenal Pulp Press, 2022.