Crítica de Ray Charles – você não me conhece
Por Guilherme Diniz

Foto: Annelize Tozetto.

“Os filhos começam a vida amando os pais; à medida que crescem tornam-se seus juízes e, às vezes, os perdoam.”
Oscar Wilde

É esta a tensão: o inquieto fantasma do pai visita o filho, alterando definitivamente o curso de sua vida. Poderíamos estar nos referindo ao canônico Hamlet, mas não só; é esse também o drama de Ray Charles Robinson Jr, o primogênito do ilustre músico afro- americano. Estamos perante dois descendentes cujos pais mortos reaparecem como espectros a causar assombro e dúvida, interesse e maravilhamento. Na tragédia shakespeareana há um pormenor importante. Ao exigir que o regicida seja devidamente punido, o falecido rei, sedento por vingança, pede ao filho para não deixar seu legado cair no esquecimento. “Lembre-se de mim” (Cena V, Ato I) são as últimas palavras do queixoso fantasma dinamarquês antes de desaparecer. Tal dilema também engolfa o filho mais velho de Ray Charles (1930-2004): o que fazer com a memória do pai? Abraçá-la ou dela se afastar? Ressignificá-la ou sucumbir-se a ela? Ora, até mesmo nos nomes a presença paterna marca a trajetória dos rebentos: Ray Charles e Ray Charles Jr.; Hamlet (o rei) e Hamlet (o príncipe). Nestes casos, as heranças são dádivas ou fardos? As duas coisas talvez, pois a angústia destes herdeiros é habitar o paradoxo. Ser e não ser.

O musical Ray Charles – você não me conhece deseja se debruçar sobre o clássico conflito que, da antiga tragédia à moderna psicanálise, continua a nos inquietar na vida e na arte: as acidentadas relações entre pais e filhos. Tracejado por incompreensões, culpas e ressentimentos, o diálogo sobrenatural entre o herdeiro e a aparição paterna torna-se uma última tentativa de conferir outro sentido a um histórico familiar pejado de amarguras e distâncias. Ademais, conversar com o espectro significa estremecer o muro de silêncio que, por anos a fio, impediu vínculos mais estreitos entre dois homens, a bem da verdade, ávidos por amor.

Diferentemente de Hamlet, Ray está longe de ser uma tragédia sombria e sanguinolenta. O musical, dirigido por Rodrigo Portella, é solar, primando, sobretudo, pela irreverência, expansão e um senso de humor, que, pouco a pouco, seduz a plateia. Do início ao fim, o espetáculo é entrecortado por aquilo que, na música (e sobretudo na black music), é chamado de groove: um sentimento quase irresistível de se jogar no ritmo, dançar gostosamente no balanço das notas, sentido sua fluidez, seu movimento. De repente estamos a mexer a cabeça, a bater com pés no rumo das ondulações sonoras (até os contrarregras se requebram por aí enquanto carregam as coisas).

Os deslocamentos, as coreografias e as mutações cenográficas, mantêm, com intensidade e destreza, a alta frequência sem deixar a energia se esvair. A direção musical de Claudia Elizeu e Muato é especialmente importante aqui, pois não apenas ressalta o requintado experimentalismo de Ray Charles, mas transfere para a cena um swing que dá vida a um palpitante senso de vibração, cinestesia e vitalidade. Evidentemente, sem um competentíssimo elenco nada disso alçaria voo. Onde se pedia acrobacias vocais e melismas, as encontramos; onde se pedia corporeidades desenvoltas e dançantes, também as encontramos. Do ponto de vista espetacular, deparamo-nos com atores e atrizes finamente precisos e rigorosos. As suas imensas habilidades físicas, interpretativas e musicais convivem, em cena, com uma alegria e um despojamento contagiantes, não tomando a virtuose como um egóico fim em si mesmo. “Só tem gente preta no palco!”, comemorou, em alto e bom som, uma espectadora. Gente preta, de diferentes gerações, que sustenta um espetáculo altamente exigente em termos técnicos, brindando-nos com belas releituras de clássicos, como Hit the road, Jack; Georgia on my mind; A song for you; Hallelujah I Love Her So; What Kind of Man Are You, entre muitos outros. Diante dessa abundância de recursos e materiais cênicos a encenação chega a pecar por excesso, ressaltando e prolongando quase todas as cenas sem se preocupar com as necessárias concisões.

Se na condição de diretor, Rodrigo Portella orquestra bem os elementos de sua montagem, o mesmo não se pode dizer de sua dramaturgia. Ela é vacilante e incerta justamente naquilo a que se propõe: analisar com profundidade a labiríntica relação entre Ray Charles e seu filho. Na maior parte do tempo, o texto não consegue adensar, nem tampouco escavar, mais complexamente, as dores desta dupla atormentada. Quando começa a mergulhar nos espinhos familiares, logo surge uma quebra, um alívio cômico, uma gag descontraída. Tais recursos, em conjunto, afastam o mal-estar, a contradição insuportável e a falta de respostas. Ao cabo, a concepção dramatúrgica parece sempre querer nos confortar, privar-nos de algumas angústias que, porventura, poderiam vir a deixar o espetáculo menos palatável. Há pouquíssimos momentos em que a tensão ganha terreno e instala a sua desconcertante atmosfera. Nestes raros minutos, temos a chance de observar mais calmamente a aflição daquelas humanidades. Mas logo somos assaltados por gracejos frenéticos e deixamos tudo isso para trás.

Parte do problema reside certamente na matéria-prima. O enredo se ancora no livro You Don’t Know Me: Reflections of My Father, Ray Charles (Você não me conhece: Reflexões do meu pai, Ray Charles, em tradução direta), escrito pelo primogênito. A narrativa de Ray Charles Jr. nos oferece numerosos detalhes do cotidiano familiar (os bastidores dos shows, as mansões suntuosas onde moraram, os procedimentos criativos do pai, bem como seu destrutivo vício em heroína, as brincadeiras com os irmãos, o assédio das revistas de fofoca etc), mas a enorme deferência ao mítico patriarca o impede, quase totalmente, de endereçar críticas e reflexões mais contundentes às contradições, ambivalências e pesares do pai: genial na música, ausente em casa; uma vigorosa voz contra a desigualdade racial nos Estados Unidos, reprodutor de um arraigado machismo, manipulando ao seu bel-prazer a esposa e as muitas amantes.

A dramaturgia caminha na mesma estrada. Ainda que não deixe de abordar as incongruências do emblemático músico, a preferência é sempre pela resolução cômica e pelo distensionamento como se o espetáculo desejasse nos poupar de um prolongado “climão”. Ora, mas é também aí que habitam as feiuras, os não-ditos e os monstros desafiadores. Os inúmeros casos extraconjugais viram combustíveis para as piadas sobre o quão galanteador era Ray Charles; após chegar tarde em casa, deixando a família numa espera interminável, a esposa finalmente o aceita e diz “hoje você faz a janta!”, divertindo a plateia. Até mesmo na grave cena do divórcio a escolha é sempre pela atenuação da crise. No livro, o filho conta-nos que o pai, com efeito, feriu fisicamente a companheira; não foi um leve empurrãozinho, como vemos em cena. Questionamos se a celebração irreverente e apoteótica do mito não acabou por deixar pouca margem para acessarmos densamente as turbulências do humano.

Há, sem dúvidas, algumas complexidades pelo caminho. Por exemplo, Ray Charles e seu primogênito são interpretados por distintos artistas (Flávio Bauraqui, Luiz Otávio, Sidney Santiago, Cesar Mello, Abrahão Costa e Caio Santos). Cada ator, a partir de seus corpos, idades, e repertórios cênicos bastante díspares, salienta facetas singulares de suas personagens, inclusive povoando a cena com temporalidades divergentes e justapostas. Pouco a pouco damo-nos conta de que o palco, como num drama expressionista, não é apenas um espaço externo, mas interno, ou seja, as reminiscências vertiginosas do filho, que se esforça para recontar a história do pai. Porém, a sensação dominante é a de que o pensamento dramatúrgico não acompanha a potência do elenco.

Na última edição do Festival de Curitiba, salientamos, ao discutir a peça Leci Brandão – Na palma da mão1, a crescente presença de narrativas negras na onda dos musicais biográficos no Brasil. Ray – você não me conhece expande, com invulgar elegância, este panorama, enaltecendo a trajetória de um premiado músico a um só tempo inventivo e consciente de seu papel político-cultural na luta contra as desigualdades raciais de seu país. Tido como um dos fundadores da soul music, Ray Charles alterou profundamente os rumos do jazz, blues, gospel, country, R&B, sobrepondo e reconfigurando, de modo experimental, uma infinidade de poéticas e linguagens pretas. Eis um multifacetado criador que, partindo da mais extrema pobreza, ousou realizar o sonho americano de sucesso, riqueza e prestígio, escancarando, contudo, as duras contradições de um país em que o racismo não é um desvio, mas estrutura. Tudo isso tem muito a dizer ao nosso contexto atual.

O musical, todavia, não realiza profundamente o seu principal objetivo: escavar a fundo as relações entre o célebre pai e o anônimo filho. Obras como O avesso da pele, do romancista Jefferson Tenório, ou Fences, do dramaturgo August Wilson, nos oferecem reflexões penetrantes sobre paternidade (e paternidade negra, em especial!), pois visitam, sem medo da angústia ou do desconforto, os infernos destas humanidades contraditórias, espinhosas e doces, pulsantes de afetos, imersas num mundo desigual e violento. Ray – você não me conhece mira à distância esses abismos.

• O espetáculo Ray Charles – você não me conhece foi apresentado no Festival de Curitiva, nos dias 27 e 28 de março.

Ficha Técnica:
Elenco Adulto: Cesar Mello, Sidney Santiago, Abrahão Costa, Luiz Otavio, Flávio Bauraqui, Leticia Soares, Luci Salutes, Lu Vieira, Roberta Ribeiro;
Elenco Infantil: Caio Santos e Victor Morais.
Músicos: Luiz Otavio, Dan Motta, Jonas Ricarte, Johny Capler; Ramon Medina e Rafael Gomes;
Idealização e Direção Artística: Felipe Heráclito Lima;
Dramaturgia e Direção: Rodrigo Portella;
Direção Musical e Arranjos: Claudia Elizeu e André Muato;
Cenografia e Direção de Arte: Gustavo Greco;
Figurinos: Karen Brusttolin; Iluminação: Gabriele Souza;

Preparação Corporal: Carmen Luz;

Visagismo: Fabiane Monteiro;
Tecladista e Músico Ensaiador: Dan Motta;

Diretora Assistente: Glaucia da Fonseca;

Programação Visual: Beto Martins;
Fotos: Ale Catan;
Consultoria de Dramaturgia: Luh Mazza; Colaboração de Dramaturgia: Milla Fernandez; Sound Design: André Breda;
Coordenação Geral: Maria Angela Menezes; Direção de Produção: Amanda Menezes; Produção Executiva: Juliana Domingos; Assistente de Produção: Carolina Camelo;
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes;
Manutenção de Mídias Sociais: Jéssica Christina;
Gestão de Tráfego: Lead Tráfego;

Captação de Apoios: Gerardo Franco;

Diretor de Palco: Ney Silveira;

Operador de Som: Bob Reis;

Camareira: Rosa;
Gestão de Projeto e Prestação de Contas: Felipe Valle e Mariana Sobreira (Fomenta Soluções Culturais);
Supervisora de Projeto: Juliana Trimer;
Analista de Projetos Incentivados: Thiago Monte;
Assistente de Projetos: Bayron Alencar.

Redes Sociais