Por Francisco Mallmann, junto de Cabaré Haikai
Foto: Humberto Araujo.
Feito quem lança um livro contra o chão repetidas vezes, busco, eu mesmo, agora, um modo de entrar no texto. Busco um modo de entrada e, por isso, já estou, eu mesmo, lançado ao texto, agora. Porque busco entrada, também busco um modo de fazer e lançar texto, agora, eu mesmo.
Feito quem arranca páginas de uma obra impressa e entrega pedaços, trechos, rasgos ao público, me pergunto o que pode nos ofertar a poesia de um poeta, afinal? Serão seus poemas, suas publicações, seu corpo, sua vida, sua biografia, as palavras que escreveu, disse, cantou, as pessoas que encontrou, as melodias que fez, as parcerias que teve, a cidade em que viveu? Será tudo isso? Será a memória de um artista, as coisas que pode um artista fazer?
Feito quem está no centro de um palco-estúdio-ateliê, com o chão coberto de folhas de papel, mesas e cadeiras abarrotadas, microfones e instrumentos, tento, em um gesto multiplicador, também vibrar palavras, junto de Cabaré haikai.
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Escrevo e tenho alguns versos na lembrança: a vida é curta para mais de um sonho. amando, aumenta até duas mil vezes o tamanho. depois de hoje a vida não vai mais ser a mesma a menos que eu insista em me enganar aliás depois de ontem também foi assim anteontem antes amanhã. por um lindésimo de segundo. isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além. um homem com uma dor é muito mais elegante. bem no fundo no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto. haja hoje para tanto ontem. tudo dito, nada feito, fito e deito.
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Cabaré haikai se lança, numa profusão poética, sobre a vasta obra de Paulo Leminski, poeta curitibano, artista da palavra, multiartista – escritor, poeta, músico, crítico literário, jornalista, publicitário, tradutor e professor.
Aqui, é nítido, as criações de Leminski não são apenas versos escritos. Porque o artista se dedicou a fazer palavra de muitas maneiras, também os artistas de Cabaré haikai o fazem, em uma peça musical. Ritmo, ruído, salto, humor, corte, verso, canção. Fazer uma peça sobre Leminski é, talvez, buscar um modo para que suas criações continuem acontecendo, reverberando na boca, no corpo, no tempo presente, em uma espécie de atualização contínua. Incorporações, experimentando o poder que a palavra tem de fazer presença – agora mesmo.
Se cantada, se falada, se impressa. Palavra solta, dentro e fora. Leminski compunha, escrevia letras de música, tensionava oralidade e som. Qual entonação, qual ritmo, qual batida. A peça escolhe não tornar Leminski tema, mas material de trabalho vibratório: fazer tremor com a vida e obra do poeta. Quem leva adianta tais sismos são Ane Adade, Michele Bittencourt, Renata Bruel e Kauê Persona – junto dos músicos Ana Clavijo, Ander Lima, Marcelo Oliveira, Rodrigo Henrique e Vina Lacerda, que também dividem o palco. O quarteto, distante da impossibilidade representacional, performa encarnações poético-musicais. Interessante, nesse sentido, o elenco formado majoritariamente por artistas mulheres. Vibração-Leminski, para além de seu bigode-imagem.
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Escrevo este texto no dia em que Paulo Leminski é anunciado como autor homenageado na FLIP 2025. Escrevo este texto aqui – em Curitiba, onde Leminski nasceu e morreu. Escrevo este texto durante o Festival de Teatro de Curitiba. E penso que deve haver, sim, algo sobre essa cidade, suas ruas, as pessoas daqui. O frio, o concreto, a introspecção. Uma poesia que, ao mesmo tempo, é rigorosa e cheia de humor, disciplinada e debochada. Silêncio profundo e, de repente, um verso inesperado. Seu petit-pavê que nos mantém de pé e nos faz tropeçar, um mesmo movimento. Breu total e céu aberto. Sol e vento gelado. A lágrima que escorre em gargalhada. Sem nunca te decifrar, Curitiba, nós seguimos seu mistério.
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E por que um cabaré? me pergunto. Na cidade em que acontece a Bienal Internacional de Cabaré, idealizada pela Selvática Ações Artísticas. Na cidade em que um jovem político de extrema direita produz uma campanha persecutória e violenta contra artistas locais, artistas de cabaré. No país em que – especialmente nos últimos cinco anos – o cabaré voltou a ser prática constante de inúmeros coletivos, em múltiplas direções, indo do burlesco ao político, do popular ao experimental, passando pelo teatro de revista, pelas reivindicações feministas e LGBTQIAP+.
E por que um cabaré? me pergunto. Formato fragmentado, distante das ilusões lineares de continuidade.
Será porque, assim como a poesia de Leminski, que vai do haikai ao trocadilho, do concretismo ao pop, do humor ao lamento, o cabaré se mantém como um espaço de hibridismo e liberdade, indo do cômico ao provocativo, do popular ao experimental – ?
Será porque o cabaré permite tal trânsito entre “a alta e a baixa cultura”, entre o rigor formal e a ginga da fala solta – ?
Será porque o cabaré permite o deboche, o jogo, a esquiva, o salto – ?
Será porque o cabaré permite que a poesia seja falada, cantada, improvisada, misturada à ação dos corpos, atrizes e instrumentistas, atores e intérpretes, artistas e performers, música e músculo – ?
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Escrevo e tenho alguns versos na lembrança: ainda vão me matar numa rua. quando descobrirem, principalmente, que faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade. o outro que há em mim é você você e você. mesmo na idade de virar eu mesmo ainda confundo felicidade com este nervosismo. de dentro do meu centro este poema me olha. nada que o sol não explique. me ensina a sofrer sem ser visto. que tudo passe e passe muito bem. pode que eu já não seja mais o mesmo.
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A despeito da arte e suas discussões – que a própria peça aborda –, Leminski é um caso curioso na literatura brasileira: um poeta experimental que vendeu milhares de livros. Um outsider que virou best-seller. Como isso se encaixa na tensão entre arte e mercado? A poesia, que parecia destinada a poucos, encontrou nele um caminho para chegar a muitos. Em contextos em que se exige da arte uma função, uma serventia que a justifique — seja o espetáculo, o lucro ou a lição: até que ponto a poesia também resiste à transformação em produto?
Cabaré Haiaki parece desejar ir além de um brinde fácil à “genialidade” de Leminski, e de um tributo à sua poesia, porque encara o atrito entre a rebeldia que ele encarnava e o fato de que sua obra, tão inquieta, também teve alcance massivo.
O interessante, contudo, é que a poesia escapa. Como um jogo de palavras que se desfaz no ar antes de ser capturado, como um riso que desarma e um verso que desvia. Sabendo que a arte nunca é só forma ou capricho: ela é sempre vestígio, embate, pulso de um tempo.
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Cabaré Haikai, em alguma medida, é menos sobre Leminski e mais sobre a maneira com que ainda escutamos sua voz em outras vozes – em cada frase que se torna música, em cada rima que desrima, em cada poeta que se arrisca a fazer da língua um exercício vivo, uma prática experimental, uma ação-sem-fim, um processo para-sempre-continuado. Foi mesmo ele quem disse, em um poema chamado “último aviso”: quem sabe ainda não acabei de escrever. Quem sabe.
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Cabaré Haikai foi apresentada nos dias 25 e 26 de março de 2025 no Festival de Curitiba.
Ficha Técnica:
Direção: Roddrigo Fôrnos;
Elenco: Ane Adade, Michele Bittencourt, Renata Bruel e Kauê Persona; Músicos: Ana Clavijo, Ander Lima, Marcelo Oliveira, Rodrigo Henrique e Vina Lacerda;
Direção Musical, Arranjos e Composições Originais: Rodrigo Henrique;
Direção de Movimento: Ane Adade; Iluminação: Beto Bruel e Lucas Amado; Cenário: Guenia Lemos;
Figurino: Albie Conceição;
Dramaturgia: Estrela Leminski, Eduardo Ramos e Roddrigo Fôrnos;
Desenho de Som: Valderval O. Filho; Assistente de direção: Eduardo Ramos; Preparação Vocal: Elisama Koppe; Designer: Mariana Borges;
Vídeos: Sopro Audiovisual;
Operação de Projeções: Thalissa Oliveira;
Cenotécnico: Vilson Kurz;
Animação Wanka: MSAV;
Ilustração Wanka: Samuel Dickow; Direção de Produção: Roddrigo Fôrnos; Produção: Veronica Dias;
Estágio de Produção: Laury Domingos;
Realização e Produção: Na Carreira Produções Artísticas.