Crítica do espetáculo Laborioso Contato – um palhaço anuncia o fim do mundo
Por Guilherme Diniz
Foto: Annelize Tozetto.
Imaginem que a Terra está prestes a ser obliterada por uma implacável alienígena que decide punir toda a humanidade pela sua mesquinhez, sede de poder e truculência cujos malefícios adoeceram todo o planeta. Uma bomba nuclear (Oppenheimer perto disso inventou um estalinho) dará cabo de nossas miseráveis vidinhas em pouquíssimo tempo. O Juízo Final se aproxima, o tic-tac do relógio gradualmente nos empurra para o precipício e já começamos a ouvir as trombetas do além. Eis que, saído ninguém sabe d’onde, surge aquele que irá nos salvar dessa tão terrível ameaça. Entretanto, o providencial defensor não é exatamente um combatente ou um semideus sublime. Longe disso. Para nossa sorte ou azar, o salvador é um bufão. Depositamos nele a esperança.
Ao analisar as várias faces da figura heroica, o estudioso Joseph Campbell lista um sem- número de possibilidades: guerreiro, santo, imperador, amante etc. Mas um palhaço heroicizado é realmente um ponto fora da curva. Este herói (ou anti-herói), tão incomum, não enaltece ou protege nossas qualidades, ao contrário, ele nos bota para rebolar até o chão, revela nossas fragilidades, contrassensos e hipocrisias, como a criança atrevida que grita a plenos pulmões: “o rei está nu!”, dando a ver como certas convenções sociais são arbitrárias, risíveis. Num divertido paradoxo, é justamente ao escancarar nossas falências, pelo riso ferino e reflexivo, que o protetor clownesco nos dá a possibilidade de repensar nossos atos. Encarar a vida político-social, perspectivando-a pelas lentes da comicidade, é uma possibilidade de desnaturalizar o sentido e o fluxo das coisas. Rir diante do perigo pode ser inconsequente, mas também um sopro de energia para nos fazer esquivar dos supostos determinismos inelutáveis, que tentam aprisionar nossas possibilidades de reinvenção. A alegria é também uma tecnologia de enfrentamento.
Laborioso Contato, da Trupe Motim (CE), realiza este gesto saborosamente hilário: projetar um palhaço como representante torto de uma humanidade também ela torta. Chico Henrique encarna, com brilho, esta missão, construindo uma personagem eivada de sarcasmo e malícia, ágil na observação do mundo, sempre pronto a nos deliciar com sua acidez mordente. Uma das características do bufão, em toda a sua estranha vitalidade, é abordar assuntos graves em tom de brincadeira, e assuntos comezinhos em tom sério, não apenas dessacralizando as convenções, comportamentos e etiquetas, mas igualmente materializando uma radical ironia diante do mundo. Isso o faz ecoar uma gargalhada que desconfia de tudo o que está dado, convidando-nos a olhar para nossas ações e vícios como se fosse pela primeira vez. Em um palco totalmente vazio, o palhaço tira sarro do poder, os seus alvos são as hierarquias e as opressões sociais do Brasil e do mundo. As crises climáticas, o conservadorismo desenfreado, as violências de classe, raça e gênero são atacadas com uma comicidade ao mesmo tempo exacerbada e consciente de seu papel político. Numa nação que já produziu o ET Bilu e o bolsonarismo insensato, para citarmos dois bizarros fenômenos achincalhados por Chico Henrique, a encenação nos mostra que absurdo e grotesco não é tanto o palhaço, mas todo um país.
A montagem se assenta grandemente nas interações com o público. Do início ao fim o palhaço não perde de vista os humores, as reações e as derrapadas de sua plateia, ora atuando como um regente dos nossos aplausos, ora convocando espectadores a partilhar com ele o palco. Nesse sentido, Chico exala um vívido estado de disponibilidade para captar o momento singular da apresentação. Nada lhe passa desapercebido, desde os quatro espectadores atrasados, que logo são transformados nos Trapalhões, ou a cabeleira grisalha de um senhor, que segundo o bufão, já vivenciou incontáveis apocalipses. As suas intervenções são carregadas de pimenta sem destroçar a dignidade de ninguém. Mas ele também não pede desculpas, pois direta e indiretamente assume a natureza brincante de seu trabalho. É um jogo arriscado e prazeroso, como são os jogos. Da mesma maneira, o senso de disponibilidade do artista se manifesta também no modo como ele capta os absurdos políticos do nosso presente, como a megalomania risível e perigosa de um Elon Musk ou o fanatismo dos bolsonaristas que invocam OVNIS pelas lanternas de seus celulares. De uma forma ou de outra, é impressionante a capacidade que os palhaços têm de nos apanhar sempre com “as calças na mão”, anunciando, para quem quiser ouvir, nossos embaraços e incongruências. A enorme plateia nas Ruínas de São Francisco se entregou totalmente à inteligente loucura do bufão, expressa em piadas, zombarias e versos.
O ator é rápido nas tiradas e simultaneamente cuidadoso na manipulação dos seus elementos de cena. Ele respeita o tempo das coisas, o momento e o contorno particulares de cada objeto. Uma das grandes preciosidades do teatro de objetos não é entulhar o palco com uma parafernália infindável, mas convidar-nos a apurar o olhar para a forma das coisas, o seu desenho, a sua imagem singular, o tempo-espaço contido na pequenez ou na imensidade de cada matéria no mundo. O objeto, nesse contexto cênico, nos solicita um olhar menos imediatista para, ao final, deliciarmo-nos com suas curvas, densidades, texturas e simbolismos. Os usos e os sentidos das coisas em constante estado de movência. Apressadamente um mero tripé é apenas ele mesmo, porém, nas mãos do palhaço a estrutura se transforma em antena. Chico manipula bizarras criaturas que parecem ter escapado do Livro dos Seres Imaginários, de Borges. Os cavaleiros do apocalipse, o alazão, o extraterrestre, o vidente, assim como as bugigangas insólitas (o radar ou o telescópio) nos cativam pelas suas formosas estranhezas, além de efetivamente comporem, ao lado do ator, a paisagem do espetáculo, mobilizando visualidades e desenhos de cena. É patente o esmero artesanal de Chico (também ele confeccionador dos objetos e dos bonecos), fato este que nos ajuda a compreender mais a intensidade e a delicadeza impressas na relação entre o ator e a matéria [aparentemente] inanimada.
Laborioso Contato aglutina, em sua composição, os experimentalismos que a Trupe Motim vem realizando em seus mais de 10 anos de existência: recompor e justapor linguagens artísticas díspares, como a bufonaria, as máscaras, o teatro de objeto e de animação, a palhaçaria, o cordel, assim como certos elementos espetaculares das manifestações culturais de rua. No panorama teatral contemporâneo, jorra do Ceará, (há muito, é verdade), uma cena bastante marcada pela pesquisa e pela autoralidade, como se vê nos projetos de Jéssica Teixeira, Pavilhão da Magnólia, Grupo Bagaceira e da Inquieta Cia., para ficarmos com apenas alguns nomes. A Trupe Motim contribui para o fortalecimento desse cenário artístico.
Um palhaço nordestino, do interior do Ceará, representou os terrestres diante do iminente fim. É instigante esta possibilidade de nos enxergarmos por meio destes seres arlequinados de longuíssima tradição na história dos teatros ocidentais: bobos da corte, artistas cômicos de feiras, os hilários tipos da commedia dell’arte, Joões Grilos, tricksters oriundos do universo farsesco, popular, diabinhos aloprados do imaginário vivo. Neles estão nossas quedas e bobagens, insignificâncias e maluquices, mas, acima de tudo, uma insistência, malandra e sorridente, na vida. Em sua tragicomédia, o nariz do palhaço mostra o melhor e o pior, o mais alto e o mais baixo desta junção de milagre e acidente a que chamamos de humano.
A bomba não explodiu. Ainda temos tempo.
Ficha Técnica
Direção, Dramaturgia e Construção: Chico Henrique;
Produção e Técnica: Janaíle Soares;
Direção Musical, Composições, Instrumentos, Gravação de Música: Lucas Ribeiro;
Violão e Composições: Laelton Ribeiro.