A feijoada de uma congada mineira virou peça teatral no Festival de Curitiba pela colher de pau Zora dos Santos
Por Sandro Moser
Zora dos Santos. Foto: Annelize Tozetto.
“Toda cozinha é uma grande orquestra”, afirmou Maurício Badé, diretor musical da peça O Fim é Uma Outra Coisa, peça da grade da Mostra Lucia Camargo do 33º Festival de Curitiba. Coube ao músico pernambucano transpor à música a sonoridade da cozinha da pesquisadora Zora Santos.
A mineira, que pesquisa há anos a preservação de saberes, técnicas e tecnologias da culinária ancestral “preta e indígena”, é a protagonista do espetáculo que leva a arte de sua cozinha para o proscênio.
“A sonoridade das coisas foi importante, me ajudou a trabalhar a construção da música: o som da faca na tábua, das panelas e dos cantos. Como dizia a minha avó: ‘cozinha e carnaval são brincadeiras sérias’”, disse.
A montagem é inspirada na célebre feijoada que Zora realiza todo mês de março na Congada Treze de Maio em Belo Horizonte. Segundo a diretora Grace Passô, “a ideia dramatúrgica veio de uma vivência nossa, de um encontro real”, resumiu.
Os sabores das cercas da infância
Durante a entrevista na Sala de Imprensa Ney Latorraca no Hotel Mabu, Zora lembrou dos sabores que cobriam as cercas das casas de sua infância na periferia de Belo Horizonte.
“As casas tinham cercas que não serviam para dividir terrenos, mas para impedir que os animais invadissem as hortas. Em toda casa havia uma horta. Isso garantia uma sobrevivência com abundância”, afirmou.
“Eram feitas com plantas comestíveis. O ora-pro-nóbis, por exemplo, que tinha espinhos que impediam a passagem dos animais, mas a gente comia”, explicou.
Zora também lembrou do uso da urtiga chamada cansanção, que pode causar danos sérios na pele humana. “As mulheres pretas descobriram que era comestível e desenvolveram uma técnica para manuseá-la com fubá. Fica maravilhosa com costelinha defumada”, contou. Hoje, segundo Zora, é raro encontrar essas práticas mesmo nas periferias. “A gentrificação foi afastando e acabando com as cercas comestíveis. Hoje em dia, nem na periferia a gente encontra mais”, lamentou.