Peça reúne memórias de homens gays idosos e reflete sobre envelhecimento e o impacto da epidemia da AIDS

Por Sandro Moser

Renato Turnes. Foto: Annelize Tozetto.

O barulho da demolição de um telhado em uma obra ao lado do Hotel Mabu interrompeu a declaração do diretor Renato Turnes durante entrevista coletiva sobre o espetáculo Homens Pink, que estreia nesta quarta-feira, na Mostra Lucia Camargo, do Festival de Curitiba. A segunda sessão acontece nesta quinta-feira (3).

“São os tabus sendo quebrados”, brincou o diretor, que falava justamente sobre a conexão de seu espetáculo com outras peças do festival que abordam temas relacionados ao envelhecimento.

“Precisamos falar sobre a velhice a partir de narrativas novas. A curadoria do festival está conectada com este momento da sociedade”, completou.

A peça Homens Pink é um desdobramento do projeto de um filme documentário dirigido por Turnes — e que está disponível no YouTube — cujo ponto de partida são os depoimentos de homens gays com mais de 70 anos.

Personagens que viveram a maior parte de suas vidas fora do armário e foram inspiradores para a juventude do diretor, como o ex-curador do Festival de Curitiba Celso Curi, Carlos Eduardo Valente, José Ronaldo, entre outros. Além de suas memórias, eles abriram documentos, objetos, fotos e vídeos de acervos particulares.

“Os homens pink foram jovens que em plena ditadura e em meio a um tempo politicamente opressor viveram uma intensa efervescência criativa na subcultura gay. A peça tem humor, glamour, pegação e sexo. É uma reflexão sobre estar vivo como homem gay velho — sem cair no trágico ou no pesado. Como a vida, que é feita de dores, alegrias, perdas e conquistas.”

Uma das histórias, a do cabeleireiro Julio Rosa, exemplifica bem a “pegada” que Turnes quis dar aos dois projetos. Expulso de casa aos 13 anos, Julinho, como é conhecido, viveu nas ruas até ser adotado por uma travesti que o protegeu. Graças a isso, pôde estudar, tornar-se cabeleireiro e, hoje, está perto dos 70 anos.

“Apesar de dramática, a maneira como ele narra sua trajetória é hilária, representando um olhar livre das amarras do sofrimento”, disse Turnes. “Nunca tive a intenção de fazer um trabalho sobre a vida no armário, opressão e sofrimento. Eu queria celebrar a história de vidas que sempre estiveram à frente, colocando a cara a tapa. Aqueles que vieram antes”, afirma.

O ponto de conexão entre todas as histórias, contudo, não tem nada de glamouroso: a epidemia da AIDS nos anos 1980. O advento da doença representou uma reviravolta na forma como a sociedade via a comunidade gay e a imagem que ela própria tinha de si mesma. Para Turnes, foi uma devastação comparável à de uma “guerra civil”, que anulou uma geração inteira e esvaziou referências culturais, afetivas e sociais.

Para ele, o espetáculo também propõe a retomada do diálogo entre gerações divididas pela epidemia. “É preciso fazer os mais jovens perceberem que houve vida e luta antes. Falta reverência. Quando entendemos que a história é coletiva, a gente não se sente sozinho. Saber que houve quem preparasse o caminho nos dá força para pensar em um futuro possível.”

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