Aclamado internacionalmente, o espetáculo une dança, ancestralidade e resistência em uma experiência envolvente e cheia de significado

Por Alanis Lavínia, especial para o Festival de Curitiba

“Encantado.” Foto: Lina Sumizono.

Após uma bem-sucedida temporada na França e reconhecimento no Brasil, “Encantado”, criação da coreógrafa Lia Rodrigues, fez duas apresentações em Curitiba, no Teatro Guaíra. Inspirado nas cosmogonias de povos indígenas e africanos, o espetáculo une dança e elementos simbólicos para explorar a conexão entre espiritualidade, natureza e resistência cultural.

Aclamado pela crítica, “Encantado” estreou no prestigiado Festival d’Automne de Paris e passou por dois importantes teatros da capital francesa. No Brasil, a obra conquistou o Prêmio APCA de Dança de 2022 na categoria coreografia/criação.

Criado durante a pandemia, o espetáculo reflete esse período em sua construção coreográfica: no início, os bailarinos aparecem isolados; em seguida, se organizam em pequenos grupos; e, por fim, reúnem-se em uma grande composição coletiva. A trilha sonora, assinada por Alexandre Seabra, reúne trechos de cantos do povo guarani mbya, registrados durante a Marcha dos Povos Indígenas em Brasília, reforçando o caráter político e ambiental da obra.

Para a atriz e dançarina Valentina Fittipaldi, em entrevista coletiva na Sala de Imprensa Ney Latorraca, no Hotel Mabu, a experiência de estar em “Encantado” é única e aberta a diferentes leituras.

“Acho importante isso, cada um tem um jeito de olhar a peça. Acho que a gente trabalha muito nessa direção, não numa história dada por nós, mas numa história que é compartilhada por quem assiste”. E emenda, sobre o processo: “Mas a gente falou, discutiu muito durante a criação sobre como tirar o ser humano do centro do mundo, como considerar outras formas de vida. A gente estava passando por uma pandemia da covid, então pensamos no vírus, das bactérias, dos fungos, visitamos outros universos. Acho que isso influenciou bastante a criação”.

Lia Rodrigues e sua dança de resistência

Lia Rodrigues é uma das principais coreógrafas brasileiras da atualidade, reconhecida por seu trabalho social e artístico. Há mais de 20 anos mantém sua companhia no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, onde também fundou uma escola de dança e um centro de artes. Seu trabalho já foi premiado internacionalmente, incluindo a medalha de Chevalier des Arts et Lettres, concedida pelo governo francês.

Embora Encantado traga uma crítica à destruição ambiental, a obra se diferencia das criações anteriores da coreógrafa, como “Para que o Céu não Caia” (2016) e “Fúria” (2018), por seu tom mais leve e esperançoso. Para Lia, a alegria pode ser uma ferramenta de resistência. “Não a alegria por si só, mas uma alegria de luta, uma esperança de luta”, explicou em entrevista.

Dança também na Mostra Fringe

Assim como “Encantado”, “Dançando Villa” também resgata elementos da identidade brasileira por meio da dança. Inspirado na vida e obra de Heitor Villa-Lobos, o espetáculo da Curitiba Cia. de Dança combina sua música com influências das religiões de matriz africana, criando uma experiência que exalta a diversidade cultural do país. A obra, que integra a Mostra Fringe do Festival de Curitiba, fica em cartaz no Sesc da Esquina de 4 a 6 de abril.

 

Serviço:

Curitiba Cia. de Dança apresenta “Dançando Villa” no Fringe – 33º Festival de Curitiba

Data: 4, 5 e 6 de abril

Horário: sexta-feira e sábado, às 20h; domingo, às 18h

Ingressos: a partir de R$10 (meia-entrada)

Local: Sesc da Esquina (R. Visc. do Rio Branco, 969, bairro Mercês)

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