festival-curitiba1x
Festival de Curitiba leva acessibilidade para o teatro e mostra que tradutores de libras também são artistas

A língua de sinais – que hoje conhecemos como LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) – tem cerca de três séculos. Mas só nos últimos anos ela ganhou espaço na sociedade e se difundiu, ainda que a inclusão esteja longe do ideal. É comum ver libras na política, durante as campanhas eleitorais, por exemplo. Mas e no teatro?

Jonatas fala sobre o desafio de interpretar libras em peças de teatro. FOTO: Annelize Tozetto

No teatro também, como prova o Festival de Teatro de Curitiba. Um trabalho que envolve inclusão e arte. Traduzir em libras no teatro, por envolver dramaturgia e performance, é diferente de uma tradução convencional.

No palco e na tradução estão os artistas.

“Traduzir em libras arte é fazer arte. O perfil do tradutor que atua com tradução teatral é artístico,  pois dialogo com os elementos da peça”, afirma Jonatas Rodrigues Medeiros, tradutor Intérprete de Libras, ator e produtor.

E a tradução em libras, ou melhor, a arte em libras, está presente em diversas peças do 30º Festival de Curitiba, que acontece até o dia 10 de abril na capital paranaense.

Curitiba respira cultura, com a presença de companhias de todo o Brasil e a possibilidade de todos participarem. “É muito significativo que nesses 30 anos de festival tenhamos uma equipe robusta e integrada para possibilitar o acesso das pessoas surdas à arte. É algo que foi historicamente negado e graças a mudança cultura está havendo inclusão”.

Nos bastidores, 10 pessoas ensaiam e se revezam para dar a maior possibilidade possível ao evento. O tradutor conta os desafios de traduzir para libras peças de teatro “O teatro exige do tradutor postura diferente.  O trabalho de tradução teatral é também um trabalho artístico e exige que a tradução seja artística”.

Mas para que isso aconteça, é necessário estudar e se conectar com as peças – trabalho que começa meses antes e exige diversos ensaios. “Quando pensamos no teatro, a arte da performance é mais presente na postura de tradução e interpretação de sinais. A performance dos artistas e toda a ambiência é incorporada por esse intérprete. Todo o espaço dialoga com a tradução”.

Traduzir a arte é uma forma de fazer arte. “O festival está abrindo as portas para que pensemos a acessibilidade como um elemento artístico e contribui para pensarmos a melhor forma de produzir uma tradução atrativa para o público surdo e formar plateia de surdos”.

O corpo fala e não é legenda, segundo Jonatas. “O corpo de quem traduz não é uma legenda, é um corpo. É um tradutor ator porque o processo de atuação está presente. É um trabalho de criação, pois estamos trabalhando com duas línguas. Temos elementos culturais e elementos artísticos”.

A tradução em libras no teatro vai se aperfeiçoando à medida em que os próprios tradutores se formam e se especializam no ambiente teatral. “Essa oportunidade de ampliar esse diálogo é linda. E também é mudança cultural. Num primeiro momento, temos a presença dos tradutores dentro do teatro. Mas o aspecto de formação de compreender o cenário teatral é muito recente.”.

Audiodescrição

No caso da audiodescrição de teatro para pessoas cegas, ou com pouca visão, o desafio é complementar com informações visuais a dinâmica de tudo o que acontece no palco. “Nossa função não é interpretar, mas complementar com informações visuais o que é necessário para que o espectador cego possa compreender o sentido e o conteúdo da peça”, explica a áudio descritora Raquel Carissimi.

Antes do início das peças, os espectadores cegos recebem equipamentos receptores como os usados em eventos com traduções simultâneas. Por um transmissor, o áudio descritor descreve os elementos de cena ao vivo, durante as pausas nas falas dos atores, para que nenhum detalhe escape dos espectadores com deficiência visual.

“Eles escutam o som do ambiente, os efeitos sonoros e dinâmica da peça e nós, pelo fone, contextualizamos detalhes como cenário, figurino, expressões corporais, gestos, movimentos, posicionamento do banco e todos os elementos cênicos que entendemos importantes”, explica Raquel.

Para a audiodescritora, a experiência tem sido “maravilhosa”. “É muito emocionante saber que podemos ajudar na formação de novas plateias e na busca da equidade para que estas pessoas possam debater e apreender as ideias e os conteúdos das peças”, disse.

Próximas peças com mediação em Libras:

“Cordel do Amor sem fim ou Flor do Chico”, nos dias 6 e 7 de abril, às 21h, no Guairinha.

“Bamberê”, nos dias 08 e 09/04, às14h30, na Praça Santos Andrade;

“Aqui é minha casa”, nos dias 7,8 e 9, às 19h30, na Praça Santos Andrade;

“Fome”, no dia 6, às 16h30 e 19h30, na Praça Santos Andrade.

Audiodescrição:

“Abjeto Sujeito”, nos dias 8 e 9 de abril, às 21h, no Sesc da Esquina;

“Quarto 19”, nos dias 5 e 6 de abril, às 21h, no Sesc da Esquina;

“Negro Não Cego”, dia 7 de abril, nas ruínas de São Francisco;

“Drag de Lança”, dia 7 de abril 18h30 e 8 de abril as 18h30 no Palco Boca Maldita.

 

Por Guilherme Bittar e Sandro Moser

NULL

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Posts relacionados

Entre os dias 29 de março e 10 de abril, você tem um encontro com a arte, os palcos, a vida!

Menu

Entre os dias 29 de março e 10 de abril, você tem um encontro com a arte, os palcos, a vida!