Espetáculo do grupo Ateliê 23 une mito de São Sebastião à história do primeiro bar LGBT de Manaus

Por Sandro Moser

Elenco e equipe de “Sebastião” na Sala de Imprensa Ney Latorraca. Foto: Annelize Tozetto.

Era o ano de 2021 e o coletivo amazonense Ateliê 23 lançou um projeto audiovisual chamado “A Bela é Poc” que contemplava um curta-metragem e um videoclipe gravados dentro da Igreja de São Sebastião, localizada no Largo de São Sebastião, ao lado do Teatro Amazonas, em Manaus.

Usar como cenários o espaço central, histórico e turístico mais famoso da cidade gerou uma reação violenta de um grupo conservador ligado à igreja com ameaças de morte, mensagens agressivas, materiais em programas policiais e protestos de rua.

A controvérsia levou o grupo a investigar a figura de São Sebastião, o santo que dá nome à igreja. Eles logo chegaram ao célebre ensaio do pesquisador norte-americano Richard Kaye, que sugere que o soldado Sebastião (256–286), antes de ser canonizado, teria mantido uma relação homoafetiva com o imperador Diocleciano.

Kaye analisa que a iconografia renascentista — que retrata o santo como um jovem atlético, seminu e atravessado por flechas — sustenta um ideal homoerótico. Na contemporaneidade, ativistas LGBTQIA+ veem em Sebastião um símbolo de coragem, resistência e orgulho.

Durante esta pesquisa, Taciano Soares e o codiretor Eric Lima se depararam com o livro “Um Bar Chamado Patrícia”, do artista Bosco Fonseca, figura histórica do movimento gay manauara. A obra resgata a trajetória do primeiro bar LGBT do centro de Manaus, nos anos 1970, em plena ditadura militar. As duas histórias se uniram para formar o espetáculo Sebastião.

“É uma peça que faz um diálogo entre duas narrativas. Uma mais documental, algo que nos interessa muito que é contar histórias que não estavam sendo narradas. O espetáculo vai ganhando um contorno de atualização, ao passo que nós, diretores, também nos colocamos em cena com nossas próprias histórias”, disse Taciano na entrevista coletiva na Sala de Imprensa Ney Latorraca, no Hotel Mabu.

Para o diretor, o maior desafio foi entrelaçar as histórias com as trajetórias pessoais do grupo. “Trazemos o mito de Sebastião para falar de alguém que pregou o amor e a liberdade — e foi condenado por isso. É isso que nos conduz”, afirma.

Na encenação, os atores drags abrem espaço para os próprios integrantes falarem de suas vivências. Ao final, o grupo se conecta com a figura do santo em uma provocação simbólica: todos são santificados, pois também pregam o amor e enfrentam a condenação.

“O espetáculo é universal. Toda cidade que se preze teve o seu Bar Patrícia. Às vezes, no mesmo momento histórico”, diz o diretor. “Durante a ditadura, os lugares de resistência se manifestavam de formas parecidas. Muitos bares surgiram como refúgios para esses corpos.”

O grupo retorna ao Festival de Curitiba após o sucesso de “Cabaré Chinelo”, apresentado na Mostra Lucia Camargo em 2024. O novo musical terá duas apresentações, nos dias 5 e 6 de abril, às 18h30, no Teatro José Maria dos Santos.

Com sede em Manaus, o Atelier 23 tem um público jovem e fiel. As apresentações costumam lotar, criando um sentimento de pertencimento que vai além do teatro.

“É muito louco ver como a gente está renovando o público sempre. A cada peça, perguntamos quem está assistindo pela primeira vez, e sempre muitas mãos se levantam. Acho que tem a ver com esse fenômeno do teatro, do boca a boca. As pessoas se sentem acolhidas”, finaliza o diretor Eric Lima.

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